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Conselhos de um certo Robert Capa!

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Conselhos de um certo Robert Capa!

Mensagem por Marcelo Rezende em 2/8/2009, 17:15

"Se as tuas imagens não são suficientemente boas, é porque não estás suficientemente perto."(Robert Capa)
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Re: Conselhos de um certo Robert Capa!

Mensagem por Marcelo Rezende em 5/8/2009, 12:45

Robert Capa, Demasiado Perto


Um cigano, um rufia, um homem a "snifar" a vida. Um apaixonado. Devorador de mulheres. Um jogador. Compulsivo. Arriscado. É o "melhor fotógrafo de guerra do mundo". Jogou a vida num "slalom" com a morte. Um jogo que perdeu, há 50 anos, ao pisar uma mina na Indochina. Robert Capa.

Raquel Ribeiro

1. "O desejo mais fervoroso do fotógrafo de guerra é estar no desemprego."

Robert Capa disse um dia a Henri Cartier-Bresson: "Não mantenhas o rótulo do fotógrafo surrealista. Diz-te fotojornalista, senão vais cair em maneirismos. E deixa o surrealismo no teu coração." E continuou: "Se te dizes artista, não te encomendarão nenhum trabalho. Apresenta-te como fotojornalista e poderás fazer o que quiseres." Esta era a liberdade de Robert Capa. E essa era também a da Magnum, a agência de fotografia que fundou, com Henri Cartier-Bresson, George Rodger e David "Chim" Seymour, em 1947.

Quando, em 1938, a prestigiada revista britânica "Picture Post" publicou uma reportagem de 11 páginas sobre a Guerra Civil Espanhola com as fotos de um jovem de 25 anos chamado Robert Capa, não sabia que estava a criar um mito. E proclamou-o "o melhor fotógrafo de guerra do mundo".

O que importa em Capa "é o que ainda está fresco, a atitude, que hoje é uma questão premente: se não estamos por dentro do acontecimento, não podemos fazer jornalismo", diz o professor de História da Fotografia, no Ar.Co, José Soudo. Ele aparece, não como inovador, mas na continuidade de estéticas "arrojadas", "a dos alemães e também a do Leste, como o construtivismo russo". Há, contudo, um contributo: "Uma nova técnica, a dos grandes planos, a de uma aproximação muito grande ao acontecimento, um estar por dentro. Capa nunca quis valorizar a vertente tecnicista da fotografia, mas sim a atitude".

Capa tem uma espécie de "contrato social", um empenho, um "comprometimento ideológico" e é isso que o fará saltar de palco em palco de conflito, da Guerra Civil de Espanha a Israel, da invasão da Normandia à Indochina. "Esta atitude pode ser ainda uma reflexão, porque hoje o fotojornalismo vai por dois caminhos opostos: uns que acreditam que já não faz sentido fazer fotografia social e, por isso, se viram para uma estética pura, que não pretende ser documentarista; depois está a ressurgir uma vaga de fotógrafos que ainda acredita que se pode dizer ou fazer alguma coisa contra a 'ordem'. Capa está no início desse ciclo", continua Soudo.

A "atitude" de Capa está lá desde o primeiro clique. Nascido Endre Friedman, em Budapeste, em 1913 (o cinquentenário da sua morte é terça-feira), deixou a Hungria em 1931, porque se estava a tornar um sítio "não recomendável" a um jovem judeu socialista, intempestivo, que já tinha sido preso numa manifestação. Friedman (Robert Capa é um pseudónimo, só "nasceu" mais tarde) foi para Berlim estudar jornalismo. Ficou sem dinheiro. Arranjou um emprego como assistente de revelação da agência de fotografia alemã Dephot. Um dia, Simon Guttman, líder da agência, ficou sem fotógrafos, pôs uma Leica nas mãos de Friedman e mandou-o cobrir uma história. Os resultados foram satisfatórios e Guttman deu-lhe mais trabalhos. O primeiro grande "furo" foi a cobertura do congresso Trotski (já exilado da União Soviética), em Copenhaga, em 1932. Mas Berlim tornou-se uma cidade perigosa para um judeu. E Friedman foi para Paris.

2. "Não são precisos truques para fotografar em Espanha. Não tens de colocar a máquina. As imagens estão lá e tu apenas as tiras. A verdade é a melhor imagem, a melhor propaganda."

Capa/Friedman é o "homem que se inventou a si mesmo". Em Paris, conhece Gerda Taro, uma refugiada alemã, também fotógrafa. Apaixonam-se. E decidem formar uma associação com três pessoas. Gerda era secretária e gestora de vendas. Endre era o funcionário da revelação. Ambos empregados de um rico, famoso, talentoso (e imaginário) fotógrafo americano chamado Robert Capa (significa "tubarão", em húngaro). Friedman tirou as fotos, Gerda vendeu-as e o crédito foi dado a um invisível Capa. Como ele era um milionário, Gerda nunca vendeu as fotos por menos de 150 francos. O segredo foi descoberto pelo editor da "Vue", Lucien Vogel. O mal estava feito: Vogel mandou Capa e Taro para Espanha.

A Guerra Civil rebenta em 1936 - e Capa acredita que é seu dever chamar a atenção para a causa republicana. Quer cobrir as movimentações no campo de batalha, as baixas, mas também traduzir com a câmara as emoções e o sofrimento da população civil. A máquina como arma contra a opressão fascista. Todas as suas imagens foram tiradas do lado republicano - era uma espécie de comprometimento.

Colaborou com as revistas francesas "Regard" e "Ce Soir", e, depois, a americana "Life". É nelas que surge publicada pela primeira vez uma das fotos mais polémicas de sempre: "Morte de um miliciano, perto de Cerro Muriano". Um homem enverga uma faixa dos republicanos, tem as pernas flectidas, a espingarda quase se solta da mão direita, um lenço vermelho na cabeça. Diz a legenda da "Life": "A câmara de Robert Capa apanha um soldado espanhol no instante em que é morto com uma bala na cabeça, na frente de Córdova." O problema é que a "Life" publicou essa imagem ao lado de outra, com outro homem, já caído (que não é de Capa).

A polémica estalou nos anos 70, alimentou teses e jornais: uma farsa ou o momento-chave da morte? Muitos teóricos dizem que a foto é uma encenação - porque na "Vue" surge uma série de imagens com o mesmo homem, momentos antes (ou depois?) desta fotografia. Há peritos a analisar as mãos do miliciano no momento do tiro - "é uma reacção muscular instintiva", defendem uns; "nunca cairia com os joelhos assim dobrados", dizem outros. A controvérsia resolveu-se a favor de Capa. Jornalistas espanhóis descobriram quem era aquele homem: Federico Borrel García existiu e morreu em Cerro Muriano, 12 quilómetros a norte de Córdova, a 5 de Setembro de 1936.

Verdadeira ou não, a foto é um instantâneo, beneficia de um efeito de real, imediato, autêntico, e documenta a posição ideológica de Capa perante o conflito - é a primeira foto personalizada da Guerra Civil. Ela muda a representação da guerra até à altura, substituindo fotos de militares anónimos, já mortos.

Se há uma fotografia da guerra civil é esta, também há um quadro ("Guernica", de Picasso), um livro ("Por quem os Sinos Dobram", de Steinbeck), um filme ("Espoir, Sierra de Teruel", de André Malraux). Capa deu à guerra de Espanha uma dimensão mítica - e a guerra deu-lhe a notoriedade que o Capa inventado precisava de ter. "Hoje estamos a ver um Capa deificado, embora ele tivesse um grande empenho no que estava a fazer, era um jovem com a natural visão romântica da época, da esquerda e do antifascismo, como outros [Hemingway, Steinbeck, Orwell, Malraux, Joris Ivens]. E é esse romantismo que os leva a estar do lado dos republicanos. Ele faz um jornalismo de esquerda, mas rotulá-lo como tal é redutor, porque o que fica são as imagens", sublinha Soudo.

3. "A guerra é como uma actriz envelhecida - cada vez mais perigosa, cada vez menos fotogénica."

Gerda Taro morre numa retirada nos arredores de Madrid, em 1937. Capa deixa Espanha (aonde voltou no final do conflito, antes da capitulação dos republicanos). Deixa a guerra. Não por muito tempo: o Japão acaba de invadir a China e ele tem uma missão a cumprir. Capa via essa guerra como a extensão da espanhola, o eixo oriental da luta contra o fascismo.

Na China, foi director de fotografia do filme "The 400 millions", de Joris Ivens, que conhecera em Espanha. "Filmei a guerra", diz Ivens. "Mas captei também os signos rituais, os corpos corrompidos e mutilados, as fugas dos refugiados, a agonia, o medo, a miséria humana, a coragem." Como Capa.

"Ele vê a retaguarda da guerra. Os mortos do terreno já não eram novidade. A grande novidade são as imagens e os dramas da população civil", explica Soudo.

Quem é, afinal, Robert Capa? Um cigano, um rufia, diz Bresson, um homem a "snifar" a vida. Bebia com Hemingway, jogava póquer com John Huston, viajava com Steinbeck. Um apaixonado. Devorador de mulheres. Mundanas ou famosas, Gerda Taro ou Ingrid Bergman. Capa é, então, um jogador. Compulsivo. Arriscado. Perto demais? A 6 de Junho de 1944, as tropas aliadas desembarcam na Normandia, Omaha Beach. Considere-se a distância entre o fotógrafo e o soldado. Capa segue na primeira vaga. As ondas, o frio, o aço espetado na areia. Capa avança por entre os corpos, por entre as balas. Obriga-se a ir, concentrando-se na máquina. Quando pára para mudar o filme, entra em estado de choque e tem de ser evacuado com os feridos.

Nesse dia, apenas 11 das 106 imagens "sobreviveram". O técnico de revelação da "Life" ficou tão entusiasmado que sobreexpôs o filme ao calor enquanto o secava, queimando os negativos. Primeiro, a "Life" disse que as imagens tinham sido estragadas pela água do mar. Depois publicou-as, explicando que "a intensa emoção do momento levou o fotógrafo a mover a câmara, por isso, as fotos surgem ligeiramente desfocadas" ("slightly out of focus"). Capa não gostou da brincadeira. Com o tempo a frase tornou-se uma espécie de emblema (é o título da sua autobiografia).

4. "Se as tuas imagens não são suficientemente boas, é porque não estás suficientemente perto."

O fotógrafo de guerra não gostava da guerra. Há qualquer coisa de roleta russa na vida de Robert Capa: em Espanha, o famoso miliciano foi baleado a poucos metros do fotógrafo; no Dia D, as balas roçavam-lhe a cabeça; em Israel foi baleado. Jogou a vida inteira nessa roleta, uma valsa, um "slalom" com a morte. Um jogo que perdeu.

Ele será sempre o herói-mártir, morto soldado entre os soldados. Em 1954, Capa é presidente da Magnum e vai ao Japão visitar jovens amigos aspirantes a cineastas. Entretanto, os comunistas e nacionalistas começam uma guerra contra os colonizadores franceses na Indochina. Capa aceita substituir o fotógrafo da "Life" durante um mês.

Em Novembro de 1932, Trotski, exilado, discursa em Copenhaga; a 25 de Maio de 1954, uma patrulha francesa avança sobre um campo na Indochina. O homem-da-câmara tira uma última foto, um último clique de cinco soldados que caminham à sua frente. Entre essas duas fotos há um húngaro chamado Friedman que se inventou a si mesmo. Há 70 mil negativos, alguns nunca vistos, outros queimados, outros perdidos. Outros vivos. O céu está limpo. Não há nuvens. Há um clique seguinte - mas não da máquina. Robert Capa pisou uma mina. A mão esquerda segurava a câmara. Estava perto demais.

Fonte : Fotografeiros
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